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A nomenclatura PICS é oficial do SUS.

Assim como, na esfera federal, o marco regulador é a Política Nacional das Práticas Integrativas e Complementares, temos, em nível estadual, as Políticas Estaduais, que, no DF, é a PDPIS, Política Distrital de Práticas Integrativas em Saúde. Então, aqui, no DF, a nomenclatura sempre foi "PIS", em vez de "PICS".

A questão toda é a reflexão se seriam mesmo práticas "complementares". Alguns defendem a ideia de que esse adjetivo conferiria uma ideia de certa subordinação a uma outra ciência que estaria se colocando, como "maior" , ou seja, a medicina ocidental hegemônica ...

O termo Práticas Integrativas de Saúde, talvez, fosse o mais interessante, e, de fato, muitos o defendem aqui no DF. Isso porque eliminaria essa certa subordinação que, de alguma forma, estaria implícita no adjetivo "complementares". De fato, é uma reflexão à qual podemos também estar atentos, até porque a língua é, muitas vezes, usada como instrumento de poder (fato!).

Sinceramente, acho interessante as reflexões em debate. Claro que me mantenho informada, vou seguindo com olhar e escuta atentos. Esse surgiu no grupo de práticas integrativas, do qual faço parte, e julguei oportuno trazer aqui a todos nós.

Aqui, estamos certos de que virá à clínica quem já começou o processo de mudança; quem já está pronto ( ou quase) para o processo de restauração do SER como um TODO, quem já está mais aberto para a VIDA, quem já consegue pensar um pouco mais fora da caixinha e, dessa forma, não tem mais o pensamento escravizado pelo sistema tradicional dominante. No fundo, é essa a verdade que temos experienciado no nosso dia a dia.

Preferimos, aqui no nosso espaço, ouvir os posicionamentos, e, como psicanalistas, não entrar em discussões, respeitar a consciência que cada um escolhe desenvolver para si mesmo.

Claro que, para nós, as práticas terapêuticas integrativas já são o futuro da medicina, para nós e para muitos outros. Isso é fato para os que trabalham nesta área e para os que entraram em tratamento e se veem recuperados.

Agora, como prof. de Língua Portuguesa e como psicanalista, essas reflexões linguísticas são um prato cheio! A cabeça fica a mil!

Não dá pra evitar... aliás, a bem da verdade, tampouco eu quero evitar... muito pelo contrário, quero mesmo é alardear o trabalho do Marcos Bagno, excelente escritor e linguista brasileiro, que tem se dedicado a, em suas obras e em sua Vida, denunciar a ideologia de exclusão social e de dominação política, perpetuadas pela língua usada em termos de poder. Bagno tem servido, como voz que denuncia o uso da língua instrumento de poder; a língua usada de tal forma a exaltar, "na maior cara dura", determinado seguimento, aquele que se coaduna com os interesses político-econômicos, em detrimento de outros que não se rendem à estrutura tradicional dominante. Essa abordagem é evidenciada, por exemplo, nas obras:

Língua de Eulália ;

Preconceito Linguístico ;

A norma oculta - língua & poder na sociedade brasileira.

Esses livros são preciosidade para o SER, trazem luz às nossas sombras, ali escondidas em estado de inconsciência, por exemplo, a intolerância à diferença do Outro.

Vale tratarmos um pouco mais sobre isso.

Se intolerância revela um grau de inconsciência total, a palavra oposta - tolerância, continua a revelar um tom de degradação, rebaixamento do Outro. Tolerar ainda permanece, como um ultraje ao Outro.

Isso nos remete ao posicionamento de Goethe. Ele já alertava, naquela época, para o fato de que a tolerância seria apenas uma atitude transitória, que deveria ser seguida de outro nível de crescimento psíquico e emocional mais aprofundado no SER - o reconhecimento do Outro, afinal: "Tolerar é injurioso”, dizia o poeta (Goethe, citado por Wismann, 2000: 100).

A ética, então, a se viver seria a de reconhecimento do Outro, a de alteridade. Isso nos põe em franca oposição a qualquer nível de preconceito e de violência.

A ética a se escolher seria a arte de se colocar no lugar do Outro, de ver por seus próprios olhos, sentir o que ele sente, compreender que se trata de um indivíduo com sua própria história de vida, necessidades e demandas pessoais. Assim, a questão seria a atitude de DECIDIR-se pela alteridade em reconhecimento pleno do Outro. Atenção plena, portanto, a qualquer manifestação inconsciente de intolerância ou mesmo de tolerância. Isso é AMOR, isso sim é a plena mensagem de Cristo. É o Reino de Deus entre nós.

Talvez, uma via bacana seja a de estarmos atentos para perceber e nos afastar e nos abster de quaisquer cenários de disputa de poder: quer seja o de preconceito linguístico, o de preconceito racial, quer seja o de xenofobia, o de sexismo...

Nós aqui do Natureba.etc temos manifestado em intensidade cada vez maior esta clara intenção voltada ao reconhecimento do Outro. É o exercício da alteridade. "Alter" refere-se ao “outro”, na perspectiva do “eu”. A alteridade, então, vem para evocar o descobrimento e do reconhecimento da concepção do mundo e dos interesses do "Outro”, sob a perspectiva dele, e, não, sob a minha. Para entender melhor alteridade, podemos pensar no conceito oposto: o de etnocentrismo, advindo da Antropologia. Etnocêntrico é aquele olhar preconceituoso, que seleciona um grupo étnico ou cultura, como "o" centro acima de todos e de tudo. Os etnocêntricos veem o Outro por meio de comparações depreciativas do SER: se o Outro não se adequa ao que eu entendo, como "o certo", "o normal"; então ele está em um nível, em um plano abaixo de mim ...

A busca por novas fontes de saber, a escuta genuína das diferentes vozes e verdades e a compreensão do Outro a partir de seus valores (e não dos “nossos”) têm sido caminhos, demonstradamente, possíveis de serem trilhados. Caminho de Vida a todos.

Fica aqui uma reflexão a nós terapeutas integrativos. Neste nosso processo constante de integração, como tem ficado a questão da intolerância, e mesmo a da tolerância? Isso é profundo! Requer que estejamos em constante revisão interna, do contrário, nós mesmos ficaremos inconscientes. Urge este estado de atenção plena em nós, esta revisão pessoal diária, esta escolha de Vida consciente que abraça a alteridade, que não entra em mecanismos etnocêntricos, ou seja, este processo de cura vivencial.

Para isso, é entrar em exercício diário de reflexão, de autoanálise em busca do reconhecimento de nós mesmos, para que haja, finalmente, reconhecimento autêntico do Outro.

Precisamos nos manter firmes nesta constante caminhada de conscientização...

Estar atento e consciente, dizer não mesmo a qualquer questão de poder...

" Toda vez que falta luz
Toda vez que algo nos falta
O invisível nos salta aos olhos..."

Quem nunca?!!

É mesmo assim impressionante!

Muito lindo e abundante todo este processo vivencial!

Aquele momento que, à primeira vista, interpretamos, como de fraqueza ou de falta; frequentemente, é quando nos permitirmos o voo livre para inúmeras possibilidades que já estavam ali disponíveis, mas que ainda não enxergávamos!

Ou até já as enxergávamos, sim, mas bem, bem de longe, como algo não possível para nós; um sonho antigo de criança acalentado na alma, mas que foi, cuidadosamente, escondido, reprimido, ficou ali guardadinho, lá no fundo, uma imagem muito desfocada, como algo inalcançável ...

As faltas nos sobrevêm a todos. Quem nunca?!

Mais hora, menos hora, a Vida se encarrega de despertar em nós novas sinapses, e novas aprendizagens estão prestes a acontecer. Ainda bem!!!!

A carência é muito simbólica. É hora de aprendermos a Vida abundante que existe quando todos os nossos sistemas de apoio foram ao chão, estamos suspensos no ar, completamente vulneráveis! O EGO, que antes era o fodástico, era o bom, agora experimenta outra realidade muito diferente! E fica ali encolhidinho, cheio de medo, angústa, ansiedade.

Esse momento é mágico e de extrema beleza: a criatividade vem à tona, nossa Essência começa a ter vez, e pronto: o invisível nos salta aos olhos! Não olhos da mente egoica, ansiosa, repetitiva, focada nas negatividades. Mas os olhos do coração, onde, cheios de coragem, e, como que, em um encantamento divino, passamos a enxergar, nitidamente, em visualização muito clara a realização daqueles sonhos mais desejados e que se casam com nossa missão de Vida!

Estamos prontos para SER em total acordo com a nossa ESSÊNCIA.

Sem amarras, livres, escutamos o canto dos pássaros vindo do interior do interior de nós mesmos - o canto da nossa alma. É a Vida que nos traz até aqui: estamos aprendendo a voar!

É um processo de morte e de renascimento. Vive acontecendo com todos nós e a todo tempo. Situações que envolvem coisas pequenas e outras bem maiores. Passar por todas essas provas, ser aprovado, talvez, seja mesmo este caminho em aprendizagem profunda de conquista de libertação do SER.

TIvemos o prazer de conhecer, em 2018, a Clara. O nome é fictício, mas simboliza mesmo o processo que esta menina lá de Minas está passando. O processo de clarear: corpo, mente, coração, espírito! É menina de lindas vivências. Ela mesma fez questão de nos autorizar a contar um pouco da experiência vivida, em palavras dela: "Pode escrever, pode usar meu nome, se quiser; às vezes, exemplos, testemunhos de outras pessoas nos fazem enxergar melhor nossa vida."

Tivemos a oportunidade de a acompanharmos em alguns dos seus processos. Houve momentos de conversas profundas por whatsapp (rsss) - tecnologias a nosso favor. Algumas demandas, entre elas, a "falta" sentida na pele. Era o trabalho, carteira assinada, mas que estava começando a ser sentido, pouco a pouco, como prisão. Aí, óbvio, o que está difícil, começa a piorar: salário atrasado; abusos constantes, e tudo, de repente, se agravou. Pintou o desespero, tudo se escureceu, nigredo total - transformações que culminam na morte do ego ilusório.

Quem nunca?!

É forte nossa identificação pessoal com diversos conceitos internalizados, que, se pararmos para refletir, nunca foram, legitimamente nossos, não representam a nossa Essência, mas aos quais cedemos já que são longos anos de exposição diária, como que numa espécie de programação mental do que se deve fazer e pensar e ser e como se deve agir e sentir... Como se houvesse mesmo uma única forma padrão, normatizada de andar no mundo. E essas exposições são desde os primeiros anos de vida! Esses conceitos e valores vão ficando rígidos, estáticos dentro de nós. Aí quando a Vida vem para abalar qualquer um desses princípios nos quais nos baseamos, nossa! Que dor!!! Que confusão!! Que angústia!! Fácil nos refugiarmos numa torre de apegos, que, em vão, tentamos defender dos estragos que aquela mudança iminente, certamente, vai causar.

Clara passou por isso. Foi muito rica a oportunidade de estarmos ali juntos a ela e ao marido neste momento da caminhada. Muito significativo mesmo ver, aos poucos, os pilares sendo abalados e o clarear de novos dias! Nosso posicionamento é o de escuta acolhedora; quando muito, muito oportuno, alguns pequenos estímulos, algumas provocações para o processo do acordar, do renascer, do alvorecer de um novo dia.

Mas antes do raiar dessa nova fase, vem a noite muito escura. É fase que dói e pra valer. A Clara estava, por exemplo, ali centrada na mente e nos conceitos de vida que lhe foram ensinados: a "segurança" e o "conforto" de uma carteira assinada! E aí, chega a Vida para lhe ensinar sobre o tempo de morte. Morte dessas formas antigas e costumeiras de enxergar a realidade. Chama-se esta fase de nigredo!

Durante o nigredo, enfrentamos uma "autêntica putrefação de antigos padrões habituais de comportamento", como explica Del Debbio, estudioso dos processos alquímicos. E é mesmo pura alquimia que acontece dentro de nós.

Tivemos este privilégio de estar ao lado da Clara e ver toda a transformação pessoal acontecer. Sempre em respeito ao tempo dela: algumas semanas foram de conversas mais intensas, menos esporádicas; em outras, ela sumia mesmo! Tudo bem! Estávamos sempre muito conscientes de QUEM é o responsável por conduzir toda boa obra!

Presenciamos, pouco a pouco, as mudanças desabrocharem. É impressionante: quando a pessoa se lança mesmo nesse processo de morte, pouco a pouco, está prestes a vir "o alvorecer de um novo estado, no qual nossa verdadeira natureza se revela" (Del Debbio). Os conteúdos ali, dentro de nós, escondidos por tantos anos, são liberados. Os sonhos deixados de lado vêm à tona com uma senhora intensidade! Brota esta semente de novas possibilidades de Vida.

Clara, pouco a pouco, começou a sair do antigo padrão mental, da zona do medo e da vitimização. Deixou os pensamentos ansiosos de lado, começou, por si só, enxergar, objetivamente, os fatos. Enxergou os salários atrasados. Ela enfrentou os fatos, e passou a se permitir enxergar e sentir uma dor que estava ali sendo negada: a do assédio moral, ao qual era submetida, diariamente, com as humilhações, as palavras que a desestabilizavam emocionalmente, as exposições vexatórias.

O assédio moral é terrível, acomete a tantas pessoas, muitas se mantêm em estado de entorpecimento, muitas continuam no trabalho, mas sob doses cada vez maiores de drogas muito conhecidas: são os famosos rivotrils, frontais, lexotans da vida... Estes são assuntos muito sérios, sobre os quais vamos, certamente, conversar, mas em outra hora...

No auge da dor, ela reconheceu e se permitiu sentir tudo: a tristeza, o desespero, a baixa estima, a ansiedade, o pânico, a revolta, a insegurança. Eram ondas de sofrimento. Total nigredo. Era a dor de muitos paradigmas sendo questionados, repensados. Nesse momento, os conceitos e valores que foram colados em nós, programados em nós, começam a se desgrudar - dói muito, dói profundamente! Mas do auge dessa dor, brota a saída da escuridão. Clara entrou, definitivamente, em contato com desejos reprimidos e com sua missão de Vida: o cuidar de gente. O dom adormecido despertou. Em pouquíssimo tempo, coisa de dias, essa menina já tinha pedido demissão e já estava com o salão de beleza dela aberto, atendendo às primeiras clientes.

Após a noite escura, vem a fase do albedo - o "sair da escuridão das nossas próprias sombras, entrar na dimensão da plena objetividade, em que o momento presente surge, como a única realidade na qual vivemos" (Debbio) e a única que vale mesmo a pena viver, porque todo o resto é ilusão!!!!

Essa corajosa menina é exemplo a todos nós. Que tenhamos ânimo de sair das nossas zonas de conforto, abrir mão de paradigmas e conceitos antigos, já internalizados e enfrentar a dor de deixar ir tudo aquilo que já está no tempo de morrer.

Clara nos autorizou postar aqui nossas conversas mais recentes.

Sempre rumo a novas aprendizagens, o processo é contínuo! Tem jeito não! Algumas cadeias rompidas! E já tomamos consciência da existência de tantas outras e seguimos para um próximo nível de aprendizado rumo à constante libertação do SER. Nossa última conversa foi sobre isso! Trazer à memória aquilo que nos dá esperança para avançarmos neste processo de morte e vida, em superação de medos, de ansiedades.

Um dia depois desta conversa, Clara já me avisa que deu um passo a mais rumo à vivência do Ser. Ela enfrentou a realidade da grana ainda curta e investiu em uma necessária internet, instrumento para que os processos terapêuticos de cura e crescimento possam fluir mais plenos. Nossa grande dificuldade durante meses foi também a dificuldade de nos falarmos, pela falta de internet. Questão resolvida! Há alguma dúvida de que ela vai conseguir pagar a internet?! Para mim nenhuma! Visualizo a Clara e o marido se fortalecendo a cada dia, e tomando força para novos desafios de Vida ainda mais empolgantes! Novos patamares!

Das vivências sentidas em mim mesma, das observadas em tão queridas pessoas com as quais temos contato, é notório: o processo é contínuo, rumo a sentirmos a LIBERTAÇÃO do SER e vivermos a nossa ESSÊNCIA.

"Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. " Jo.8:36

Talvez, seja mesmo uma questão de permanecer firme em confiança cega n´ELE!

São várias pequenas mortes, muitas de velhos paradigmas aos quais nos apegamos, mas que, depois de certo tempo, passam a nos apertar.

Por pura GRAÇA, ao nos lançarmos nestes processos de luto, nascemos de novo e de novo e de novo e again...

Quem nunca?!

A música é o som do Universo, tem o poder de nos reconectar TOTAL.

Então, que tal fecharmos este artigo tão longo e já peço desculpa de antemão! É que este assunto nos empolga.

Esta música a seguir é muito simbólica para nós aqui do Natureba.etc.

Ela é preciosíssima: Learning to Fly, Pink Floyd.

Boa curtição!

E que o invisível nos salte aos olhos!!!

Aprendendo a Voar